Uma leitura crítica de “O emplasto dos poetas malditos”, entre a herança machadiana e a reinvenção da forma lírica na poesia contemporânea.
O defunto que escreve
Em "O emplasto dos poetas malditos", o poeta Miguel Júnior cria uma voz lírica singular: não é o autor vivo que canta a morte, mas o morto que insiste em poetizar. A inversão do início — "não ser um poeta defunto, / mas um defunto poeta" — já nos dá a chave da leitura. Trata-se de um poema sobre a escrita como sobrevida, como último sopro de linguagem antes do colapso.
A voz morta do poema caminha entre os vivos, deseja morrer lentamente, metodicamente — mas tamborila, insiste, rasga os versos como navalha no vidro. O verbo explode, estrídulo, apenas para lembrar que viver é preciso — tanto quanto as cabriolas de volantim.
Machado de Assis e o defunto que narra
O título já sugere o diálogo: o "emplasto" evoca o famoso narrador de Machado de Assis, Brás Cubas, aquele que do além escreve suas memórias com ironia desencantada. Brás é o "defunto autor"; Miguel Júnior nos dá o "defunto poeta".
Mas há uma diferença sutil e decisiva. O narrador machadiano escreve para nada transmitir — só para zombar. Já o poeta de Miguel Júnior escreve porque precisa, mesmo sabendo da inutilidade, da marginalidade, da condição trágica do que faz. Sua poesia é como o próprio emplasto: não cura a dor, mas alivia.
Um soneto espectral
O poema assume a forma de soneto — mas um soneto espectral, rarefeito. Dois quartetos, dois tercetos, mas sem rima, sem métrica fixa. Apenas a estrutura lógica resiste. Isso já é um sinal: Miguel Júnior se apropria da forma clássica apenas como carcaça, como esqueleto onde ainda pode dançar.
Como em Drummond, como em João Cabral, o poeta aqui reorganiza o soneto para dar conta da sua urgência, da sua estranheza. O tradicional se contorce para abrigar o contemporâneo.
As cabriolas como poética
O último verso é a chave de ouro: “para lembrar que viver é preciso / tanto quanto as cabriolas de volantim”. Viver, aqui, é saltar, improvisar, voar — mesmo que em espasmos. A pipa (volantim) representa a leveza, mas também a instabilidade. E “cabriolas” é imagem perfeita do estilo: saltos inesperados, desvios, improviso — como em Machado, como nos poetas malditos.
O poema, assim, se afirma como cabriola. Seu movimento é errante, seu verbo é voo. Ele não quer dizer uma verdade fixa. Quer apenas persistir no ar — antes da queda.
Conclusão: um voo breve e lúcido
Miguel Júnior nos entrega um poema raro: irônico sem cinismo, trágico sem lamento, formal sem rigidez. O soneto espectral, a figura do defunto que escreve e a imagem final do volantim compõem uma poética da leveza lúcida.
Escrever, aqui, é saltar antes de cair. A poesia não salva, mas ainda pode tamborilar os vivos. E isso — nesse mundo de ruídos — já é um gesto profundo de resistência.
Boa leitura!
O emplasto dos poetas malditos
Que os deuses permitam sentenciar:não ser um poeta defunto,mas um defunto poeta.Daqueles que morrem desdeo dia em que nascem, lentamente…Daqueles que caminham no meio do povoe — ainda que não se carpisse —,desejam morrer metodicamente.Mas, como todo espírito,ansioso por tamborilar os vivos,rasga os versos num som estrídulocomo navalha em vidropara lembrar que viver é precisotanto quanto as cabriolas de volantim.


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