Desvendado o mundo das rimas


1. Quais são os tipos de rimas?

As rimas podem ser classificadas de várias maneiras. Eis os principais tipos:

a) Quanto à POSIÇÃO NO VERSO

Rima Cruzada (ABAB): O verso 1 rima com o 3, e o 2 com o 4.

Ex: "Minha vida era um palco (A) / iluminado, um foco (B) / que me desloca e falca (A) / no ritmo que eu invoco (B)."

Rima Emparelhada ou Pareada (AABB): O verso 1 rima com o 2, e o 3 com o 4.

Ex: "No sussurro do vento (A) / um segredo sento (A) / na folha que cai (B) / o outono me traz (B)."

Rima Interpolada ou Oposta (ABBA): O verso 1 rima com o 4, e o 2 com o 3.

Ex: "O mar sereno (A) / com seu canto (B) / é um bem santo (B) / profundo e ameno (A)."

b) Quanto à SONORIDADE

Rima Consonante ou Perfeita: A sonoridade é idêntica a partir da vogal tônica, incluindo consoantes.

Ex: GATO / PRATO; FLOR / AMOR.

Rima Assonante ou Imperfeita: Apenas as vogais (e eventuais semivogais) coincidem a partir da tônica. As consoantes podem diferir.

Ex: CORPO / PORTO; CASA / FALSA.

c) Quanto à ACENTUAÇÃO TÔNICA

Rima Aguda ou Oxítona: A sílaba tônica é a última do verso.

Ex: AMAR / CANTAR; PÉ / PORQUÊ.

Rima Grave ou Paroxítona: A sílaba tônica é a penúltima (a mais comum em português).

Ex: CAMPO / TAMPO; VIDA / MEDIDA.

Rima Esdrúxula ou Proparoxítona: A sílaba tônica é a antepenúltima. Tem um efeito mais raro e marcante.

Ex: LÂMPADA / PÉSSIMA; ÂNGULO / FÂNGULO.

d) Quanto ao NÚMERO DE SÍLABAS

Rima Rica: As palavras que rimam pertencem a classes gramaticais diferentes.

Ex: VERBO (substantivo) / ACERBO (adjetivo).

Rima Pobre: As palavras que rimam pertencem à mesma classe gramatical.

Ex: CANTAR (verbo) / AMAR (verbo); CASA (substantivo) / ASA (substantivo).

2. Um poema contemporâneo deve ser rimado ou não?

Não, absolutamente. A poesia contemporânea em sua maioria não exige o uso da rima. A partir das vanguardas modernistas do século XX, houve uma libertação das formas fixas (soneto, balada, etc.) e da métrica regular.

O foco deslocou-se para:

O Ritmo Interno: A musicalidade criada pela disposição das palavras, repetições, aliterações e a respiração do verso.

A Imagem e a Metáfora: A força da linguagem figurada.

A Concisão e a Sugestão: Dizer mais com menos.

A Liberdade Formal: O poema pode assumir formatos visuais, ser prosa poética, etc.

Usar rima hoje é uma escolha estilística, não uma obrigação. Se você achar que a rima serve ao seu propósito e não soa forçada, use-a. Se não, não há problema algum em escrever versos livres (sem rima) ou brancos (com métrica, mas sem rima).

3. Qual o tipo de rima é apreciado pela crítica especializada atualmente?

A crítica especializada contemporânea não valoriza um "tipo" específico de rima, mas sim o uso consciente, criativo e não óbvio de qualquer recurso sonoro.

O que é apreciado

Rimas Internas: Aquelas que ocorrem no meio do verso, e não apenas no final, criando uma textura sonora mais complexa.

Rimas Assonantes e Aproximações: Que criam ecos sutis em vez de batimentos previsíveis. Ex: "calma" com "alma" (consoante) é previsível; "calma" com "asas" (apenas o "a" tônico ecoa) é mais sutil.

A Rima a Serviço do Sentido: Quando a rima não é um mero adorno, mas reforça o significado do poema. Uma rima inesperada pode causar estranhamento e profundidade.

O Domínio da Forma: Quando um poeta contemporâneo escolhe uma forma fixa (como um soneto), a crítica valoriza a habilidade de usar a rima de maneira renovada, sem clichês, trazendo um conteúdo atual para uma forma tradicional.

Em resumo, a crítica valoriza a inteligência sonora e a originalidade acima da mera técnica.

4. Quais rimas devo evitar? Existe rimas clichês?

Sim, existem rimas clichês! Elas são geralmente evitadas porque são previsíveis, gastas pelo uso excessivo e podem empobrecer o poema, dando-lhe um ar ingênuo ou de "poesia de cartão de visita".

Lista de Rimas Clichês (ou "Rimas Fáceis") a Serem Evitadas ou Usadas com Extrema Cautela:

Amor / Dor / Flor: Talvez o trio mais clichê da língua portuguesa.

Vida / Sentida / Sofrida / Guarida

Coração / Canção / Ilusão / Paixão

Destino / Divino / Menino / Caminho

Mar / Amar / Cantar / Encontrar

Céu / Véu / Anjo / Dezembro

Mundo / Profundo / Rimar / Fundo

Gente / Sente / Adolescentemente

O que mais se deve evitar

Rimas Forçadas (ou "de padeiro"): Quando o poeta distorce a sintaxe ou escolhe uma palavra que não faz sentido no contexto só para rimar.

Ex: "Eu vi o menino / no seu caminho divino" (se "divino" não acrescenta nada ao sentido, é apenas um enchimento para a rima).

Rimas Pobres Repetitivas: Usar sempre a mesma classe gramatical (dois verbos no infinitivo, dois substantivos) de forma sistemática e sem criatividade.

Conselho Final

Leia muita poesia contemporânea (de autores como Manoel de Barros, Adélia Prado, Ferreira Gullar, Armando Freitas Filho, Ana Martins Marques, Carlos Drummond, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo, Cecília Meireles, Ana Cristina Cesar, Arnaldo Antunes, Carlos Nejar, Henriqueta Lisboa, Mário Quintana, Nícolas Behr, Chacal, Francisco Alvim, Hilda Hilst, Paulo Henriques Britto, Paulo Leminsk, Cacaso entre outros) para entender como a musicalidade é trabalhada hoje. A rima, quando existe, é um elemento a mais no vasto arsenal do poeta, e não o seu mestre. Escreva com liberdade, ouvindo o ritmo das suas próprias palavras.

post scriptum

As rimas internas são um recurso musical poderoso e sofisticado, muito apreciado na poesia contemporânea porque criam uma textura sonora rica e complexa, indo muito além da simplicidade da rima final.

Diferente da rima tradicional (que acontece no final dos versos), a rima interna ocorre dentro de um mesmo verso ou entre palavras no meio de versos diferentes.

Aqui estão os exemplos, categorizados por tipo de efeito:

1. Rima Interna Pura (dentro do mesmo verso)

É quando duas ou mais palavras dentro do mesmo verso rimam.

Exemplo 1

"O canto do santo era um pranto ao entardecer."

Aqui, "canto", "santo" e "pranto" criam uma música melancólica e repetitiva dentro do verso, reforçando a ideia de lamento.

Exemplo 2 (Clássico de Fernando Pessoa)

"O teu querente é tão lentamente."

Neste famoso verso, "teu" e "lentamente" rimam de forma assoante, e a própria palavra "lentamente" parece se arrastar, mimetizando o significado.

Exemplo 3

"O vento sussurra um alento de segredo."

"Vento" e "alento" rimam e ambas estão ligadas semanticamente à ideia de ar e respiração.

2. Rima Interna Ligando Versos Diferentes

É quando a rima não está só no final, mas também ecoa no meio dos versos subsequentes.

Exemplo 1

"No frio do meu quarto, um grito

ecoa no silêncio infinito."

Perceba a cadeia sonora: "frio" (verso 1) rima com "grito" (início do verso 2), e "grito" rima com "infinito" (final do verso 2). É uma rede de sons.

Exemplo 2

"A lua cheia na rua é uma ilusão sua."

Neste caso, temos uma rima interna ("lua" com "rua") no primeiro verso, e "rua" ainda rima com "sua" no final do segundo verso, criando um efeito de espiral sonora.

3. Rima Interna com Assonância e Aliteração (Mais Sutil)

Muitas vezes, a rima interna contemporânea não é consoante e perfeita, mas sim um jogo de vogais (assonância) ou consoantes (aliteração).

Exemplo de Assonância (repetição de vogais)

"O barco avaro corta as águas paradas."

O som do "a" (aberto e fechado) em "barco", "avaro" e "águas" domina o verso, criando uma sensação de abertura e lentidão.

Exemplo de Aliteração (repetição de consoantes)

"O sussurro sob a sombra serena."

A repetição do som "s" (um fonema sibilante) imita o próprio sussurro que o verso descreve. É uma rima de consoantes, um efeito interno potente.

4. Exemplos de Poetas Consagrados

Manoel de Barros (mestre em criar musicalidade com a linguagem)

"O pantanal passava um açougue de aves.”

Perceba os sons que se repetem: "pantanal" e "passava" compartilham os sons "pa" e "a"; "açougue" e "aves" compartilham o "a" inicial. Não é uma rima perfeita, mas uma costura sonora interna.

Caetano Veloso (na música "Sampa", um exemplo magistral)

"Eu preparei uma canção

Que no peito bateu

Bateu, ao ver você"

Aqui, a rima interna "bateu" e "ver" (uma rima assoante) quebra a expectativa e dá um ritmo coloquial e único à frase, ligando os versos de forma inesperada.

Por que usar rimas internas?

Musicalidade: Cria um ritmo mais complexo e interessante do que a rima final sozinha.

Ênfase: Destaca palavras ou ideias importantes dentro do verso.

Coesão: "Costura" o poema sonoramente, unindo versos e ideias.

Modernidade: É um recurso valorizado porque é sutil e exige um ouvido apurado do poeta e do leitor.

Em resumo, a rima interna é a arte de esconder a música dentro do tecido do poema, e não apenas em suas bordas.

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