1. A Abordagem de "Redução de Danos" à Escrita Poética
Adriano Scandolara posiciona seu guia não como um incentivo à escrita, mas como um manual de "redução de danos". A premissa é que o impulso para escrever poesia é frequentemente uma "necessidade, um ímpeto avassalador". Diante disso, o objetivo do autor é pragmático: fornecer ferramentas para evitar a publicação de poemas ruins, cumprindo assim uma "função social".
Ele se distancia da ideia de ministrar oficinas de poesia por duas razões principais:
Desgaste Pessoal: Considera desgastante a tarefa de criticar o trabalho de alunos sem intimidade, descrevendo-se como alguém que tende a evitar conflitos.
Suficiência do Conteúdo: Acredita que todo o seu ensinamento sobre o tema pode ser condensado em uma ou duas edições de sua newsletter.
O autor enfatiza que sua abordagem é metódica e pessoal, reconhecendo que "tem várias formas de se escrever poesia" e que o importante é cada um encontrar seu próprio processo.
2. O Pré-requisito Inegociável: A Leitura Expansiva
A base de toda a sua argumentação reside em uma única regra não negociável: para escrever poesia, é imperativo ler poesia.
Amplitude da Leitura: O autor recomenda a leitura de poesia brasileira e estrangeira, clássica e contemporânea, de autores canônicos e "de lugares obscuros".
Função do Repertório: Um bom repertório evita a armadilha de criar algo que se acredita ser "revolucionário" mas que "já foi feito (melhor) 200 anos atrás".
Crítica à "Não Influência": Scandolara rechaça veementemente o argumento de não ler para não ser influenciado, classificando-o como "uma das coisas mais burras e egoicas" que um aspirante a poeta pode dizer. A influência é inevitável, e o conhecimento prévio é uma ferramenta de aprimoramento.
3. O Ponto de Partida: Encontrando o "Fio da Meada"
Scandolara defende que, embora um poema não tenha as exigências funcionais de uma cadeira, "é uma boa ideia ter um plano geral ao escrever". Esse plano começa com a identificação de um "fio da meada", um ponto de partida concreto.
Pontos de Partida Recomendados
a) Uma Imagem Marcante
Exemplo Principal: O poema "Primeira foto de Hitler", de Wislawa Szymborska, que gira em torno da imagem específica de Hitler como um bebê, explorando os sentimentos complexos que essa imagem desperta.
Exemplos Históricos: O romantismo inglês, que frequentemente partia de cenas da natureza para explorar sentimentos intensos, como em Wordsworth (narcisos), Shelley (Mont Blanc) e Coleridge (geada). A obra do pintor J. M. W. Turner é citada como um paralelo visual.
b) Um Verso Específico
Exemplo Literário: O personagem Bentinho, em Dom Casmurro, a quem um verso decassílabo ("Oh flor do céu! Oh! Flor cândida e pura") surge espontaneamente, servindo de base para a tentativa de compor um soneto.
Práticas Históricas: A poesia palaciana portuguesa utilizava "motes" (versos dados) para que os poetas desenvolvessem "glosas", uma forma de competição poética.
Fontes Diversas: Um verso pode ser extraído de livros (a Bíblia é citada como fonte fértil), músicas ou outras fontes.
Exemplos do Autor: Paulo Henriques Britto, em "Nove Variações sobre um Tema de Jim Morrison", parte de um verso do The Doors. O próprio Scandolara usou pichações de muros em Curitiba como motes para poemas em seu livro Lira de lixo, citando "Elaine Puta" como seu favorito.
Pontos de Partida a Serem Evitados
a) Uma Ideia Abstrata: Citando Mallarmé ("Poemas são feitos com palavras, não com ideias"), o autor afirma que é um desafio tremendo desenvolver um poema a partir de um conceito abstrato, pois poemas não são tratados filosóficos. A concretude facilita o processo.
b) Uma Mensagem: A poesia é considerada um "péssimo lugar" para comunicar uma mensagem urgente por três motivos: o público leitor é pequeno, a mensagem pode se perder entre os efeitos poéticos e o resultado provável é um poema ruim.
c) Uma Experiência Pessoal Marcante (com cautela): Embora possam render "obras fenomenais" (como "Grodek" de Georg Trakl), são "extremamente difíceis de fazer direito". Exigem alta capacidade poética e psicológica, e a profundidade da experiência para o autor não garante sua transmissibilidade ao leitor, podendo resultar em algo doloroso ou ridículo.
d) Metapoesia: O autor expressa cinismo sobre o tema, afirmando que "já temos o suficiente". No entanto, ele recomenda alguns metapoemas específicos que considera pertinentes: "Procura da poesia" (Drummond), "Ars poetica" (Archibald McLeash), "Arte Poética" (Adília Lopes) e, com ressalvas, a "Arte Poética" de Verlaine.
4. O Desenvolvimento do Poema: Decisões Estruturais e Estilísticas
Após encontrar o "fio da meada", o desenvolvimento do poema exige a tomada de decisões conscientes sobre sua construção.
A Escolha da Forma
a) Verso Livre: A decisão pelo verso livre não deve ser por preguiça. Existem variações, desde o estilo declamatório de versos longos (Walt Whitman, Allen Ginsberg) até o estilo contido e recortado dos imagistas (William Carlos Williams, Ezra Pound).
b) Formas Fixas: Formas como o decassílabo, as redondilhas e o soneto ainda são relevantes e oferecem recursos expressivos que não devem ser descartados. O domínio não é obrigatório, mas ajuda.
c) Hibridismo: É possível explorar a interação entre formas fixas e verso livre. O autor cita seu poema "Fracasso", que começa como um soneto e depois se desestrutura formalmente para acompanhar a temática.
d) Prática: A tradução de poesia é recomendada como um exercício para ganhar prática com formas.
Definindo o Tom e o Vocabulário
a) Paleta de Cores: O tom do poema é comparado a uma paleta de cores, definindo sua amplitude emocional (reflexivo, triste, debochado) e seu registro de linguagem.
b) Escolha de Palavras: A seleção do vocabulário é crucial, pois palavras carregam conotações distintas. A diferença entre "tapete" e "capacho" é usada para ilustrar como a escolha lexical confere peso e direção ao poema.
c) Amplitude: O poeta pode optar por limitar a amplitude de registros para criar consistência ou transitar entre vários, mesmo dentro de um único poema.
5. O Processo de Escrita e Revisão
A etapa final do processo envolve a lapidação, a avaliação crítica e, crucialmente, o descarte.
Princípios Orientadores
a) Evitar Estereótipos: É fundamental abandonar ideias pré-concebidas do que é "poético", como o uso de palavras difíceis de forma verborrágica. Isso, segundo o autor, geralmente denota falta de repertório de leitura.
b) A Prática da Concisão: O autor defende que "menos é mais", especialmente para iniciantes. Escrever poemas curtos (cerca de dez versos) é um excelente exercício para aprender a ser conciso e evitar diluir o potencial do texto. Ele cita o poema "Hope Is Not a Bird, Emily, It’s a Sewer Rat" de Caitlin Seida como um exemplo didático de um poema que se estende desnecessariamente.
A Prática da Revisão e do Descarte
a) O Método da Gaveta: Após escrever um poema, é recomendado guardá-lo por alguns dias ou uma semana. Esse distanciamento permite uma avaliação posterior mais fria e objetiva.
b) A Necessidade do Descarte: Esta é apresentada como a "lição mais difícil". O autor estima que, para cada poema publicado em seus livros (Lira de lixo e Minguante, totalizando 110 poemas), ele tenha jogado fora outros dez.
c) A Metáfora da Compostagem: O descarte não é um desperdício. Scandolara usa a máxima "merda é adubo" e cita a escritora Erin Bow: "Nada que se escreva é desperdiçado... Elas farão com que as próximas palavras sejam melhores". O material descartado nutre o trabalho futuro.
d) Desenvolvimento a Longo Prazo: Com o tempo e a prática, desenvolve-se uma voz própria, um entendimento do processo e a capacidade de identificar o que funciona. Ter um feedback honesto de amigos (o autor menciona o coletivo "escamandro") é um fator importante nesse percurso.
[1] Adriano Scandolara é poeta e tradutor nascido em Curitiba. Doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, publicou traduções de autores como Aldous Huxley e H. G. Wells, além da poesia de Percy Bysshe Shelley e John Milton. Foi finalista do Prêmio Jabuti de tradução de 2023 com Inana, antes da poesia ser palavra era mulher. É o tradutor de Teerã noir. Fonte: https://mercuriusdelirans.substack.com/p/m-d-21-e-como-escrever-um-poema


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