O poeta Miguel Júnior, já conhecido por uma escrita de alta densidade simbólica e por um lirismo que flerta com a ruína e o silêncio, nos entrega em “Pesadelos” um poema breve e inquietante, onde a linguagem é tensionada ao limite da significação. Não há linearidade, nem conforto. Há uma travessia.
Logo no primeiro verso — “Minhas memórias de larvas” —, o leitor é lançado a um universo de imagens em decomposição, onde a memória não edifica, mas corrói. O que jaz, jaz com cor: fantasmas que, ao colorir correntes, jazem. A metáfora é uma artimanha da sombra. A história, por sua vez, “ulcera” — verbo inusitado que confere fisicalidade e dor a uma abstração que se petrifica.
Entre os traços desse lirismo sombrio, o poema carrega certa desesperança do sublime, que só resta “pra tudo apenas demora”. A vida é descrita como “(ar)riscada em papel”, um dos versos mais ambíguos e engenhosos do poema, capaz de condensar num só gesto a ideia de risco, escrita, fragilidade e volatilidade.
A última estrofe é um grito sutil: “Ó manhãs das neblinas / rompa essa insônia canina!”. Há quem escute nela um apelo por lucidez, outros talvez ouçam apenas o eco de uma vigília amarga, como se o mundo estivesse aprisionado em um delírio imóvel.
“Pesadelos” não busca consolar nem explicar. É uma experiência lírica que exige leitura atenta, predisposição ao enigma e à metáfora em combustão. Um poema para ser relido, ruminado, como quem tenta decifrar os restos do sonho antes que se apaguem ao amanhecer.
Minhas memórias de larvas— minhas imagens — calemo difícil discernir dos fantasmasque, ao colorir correntes, jazem.A história de pedra ulceraque pede contorno, retornodifícil — arrancar poeiradas traças abatidas pelo dorso.Resta o sublime agorapra tudo apenas demoravida (ar)riscada em papelquem irá reclamar espólio?Ó manhãs das neblinasrompa essa insônia canina!


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