Em um tempo de hiperexposição, discursos apressados e versos ralos, surpreende encontrar um poema que resiste à pressa e convida à escuta lenta. Assim é “Tempos:delírios”, de Miguel Júnior — um soneto que, à primeira leitura, parece nos lançar a um vórtice existencial, mas que revela, a cada verso, uma refinada meditação sobre a experiência do tempo, a fragmentação da consciência e o esvaziamento do viver.
Miguel Júnior não é um nome amplamente conhecido, mas escreve como quem domina tanto a tradição quanto os riscos da linguagem. Seu poema é construído na arquitetura clássica do soneto (dois quartetos e dois tercetos, com rigor métrico e rimas discretas), mas o que pulsa dentro dessa forma é tudo, menos convencional.
Logo nos primeiros versos, o leitor é transportado a um “universo atemporal / Onde até a viva luz se congela” — um cenário que, mais do que situar, dissolve o tempo, abrindo espaço para uma percepção radical da fragilidade do ser. A imagem da “luz congelada” é de rara força simbólica: ali onde a luz, símbolo máximo da razão e da vida, se imobiliza, algo profundamente inquietante emerge.
Entre fotogramas e passos perdidos
Ao longo do poema, o eu lírico desaparece como sujeito central. Em seu lugar, um “ser que em si lentamente/ Se compreende completo em seus fardos” nos fala de estados alterados da percepção, como se a vida se reduzisse a uma série de “fotogramas que embriagam a mente” — fragmentos dissonantes de uma totalidade ausente. O uso dessa metáfora cinematográfica não é gratuito: indica um mundo percebido não mais pela experiência contínua, mas por flashes, rupturas e sensação de irrealidade — sintomas de um tempo delirante, como sugere o título.
Ao final, nos deparamos com imagens de força e melancolia: “Fruta na boca sem qualquer sabor”, “passos perdidos”, “estrada selada” — tudo aponta para a ausência de sentido ou de transformação. Há aqui um niilismo contido, lúcido, que não dramatiza, mas constata: “Se não viveu, nada resta ao se for.” Um verso de ressonância lapidar, que encerra o poema com a frieza de um epitáfio.
A forma como campo de resistência
Se é verdade, como dizia Antonio Candido, que a forma na poesia é um modo de organizar o caos, então Miguel Júnior opera essa resistência com sobriedade e rigor. O uso da forma fixa (o soneto) não é uma volta nostálgica ao passado, mas sim um gesto de confronto silencioso com os tempos da efemeridade e do excesso. A métrica, o ritmo e as imagens densas funcionam como diques diante do fluxo avassalador da linguagem automatizada.
Mais do que obedecer à forma, o poeta a reinveste de sentido, tensionando-a com conteúdos filosóficos e existenciais que dialogam com Fernando Pessoa, Jorge de Lima, e até com ecos camonianos em sua busca por um “eterno” impossível.
Um poema entre o ser e o nada
Ler “Tempos:delírios” é como encarar um espelho que, em vez de devolver o rosto, projeta o vazio de um tempo que não se reconhece mais. Em tempos de excesso de presença, o poema reflete sobre a ausência; em tempos de excesso de fala, ele silencia. Por isso, sua voz ressoa.
Miguel Júnior, com esse poema, se inscreve entre os poetas que não têm pressa de serem lidos, mas que merecem ser escutados com atenção — não porque gritem, mas porque fazem do murmúrio da existência uma forma alta de poesia.
Tempos:delírios
Nesse vasto universo atemporal,
Onde até a viva luz se congela
E tudo ao presente se revela:
O nascer de uma fraqueza letal.
Delírios da existência em estados,
Fotogramas que embriagam a mente.
Imóvel, o ser que em si, lentamente,
Completa-se em seus fardos calados.
Em cada instante, uma tela pintada
À procura do eterno com fervor.
Somos apenas estrada selada,
Fruta na boca sem qualquer sabor,
Passos perdidos, inúteis passadas —
Se não viveu, nada resta ao se for.


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